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Mostra de Arte e Cultura de SFX



Durante todo o  mês de julho estará acontecendo a Mostra de Arte e Cultura de São Francisco Xavier, evento que ocorre nos finais de semana. 
Nesse domingo, dia 15/07 será exibido o filme ATLÂNTICO NEGRO: na rota dos orixás, no Photosofia Arte & Cozinha, às 19 hs. A direção é de Renato Barbieri e roteiro de Victor Leonardi que após a exibição fará um bate papo com o público.

O escritor Victor Leonardi visita o Sítio do Pica-pau amarelo – 130 anos do nascimento de Monteiro Lobato

                                                                      Texto e fotos: Márcia Tonholi



No dia 18 de abril comemorou-se o aniversário do escritor Monteiro Lobato, nascido em Taubaté, interior de São Paulo, há 130 anos. Essa data foi escolhida como Dia Nacional do Livro Infantil, em homenagem a ele.

Em visita à casa de Monteiro Lobato, Victor Leonardi doou alguns livros de sua autoria para a Biblioteca do Sítio do Pica-pau amarelo, dentre eles Montanha do meio do Mundo, uma fábula escrita para crianças, adultos e sábios da floresta.

José Renato Monteiro Lobato, contista, ensaísta, tradutor, crítico de arte, editor, jornalista, diplomata, pintor, promotor público e fazendeiro foi um dos primeiros autores de literatura infantil no Brasil. Passou parte da infância na Fazenda Buquira, que herdou de seu avô, o Visconde de Tremembé.

É justamente nessa fazenda que o escritor encontrou inspiração para mais tarde criar as histórias do Sítio do Pica-pau amarelo e seus personagens.
Suas obras foram traduzidas para vários idiomas, em diversos países: Síria, Líbia, Rússia, Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Espanha, Estados Unidos e Argentina, país onde ele morou algum tempo.

O Sítio do Pica-pau amarelo fica a 8 km do centro da cidadezinha de Monteiro Lobato, na Serra da Mantiqueira, e foi lá que conhecemos duas pessoas muito especiais – a professora Maria Lúcia Guimarães, atual proprietária da fazenda, que generosamente abre a casa onde mora para visitação, e o estudante de pedagogia Claudio Augusto Rodrigues, que conhece muito sobre a vida e obra de Lobato e é também o braço direito de Maria Lúcia na lida com o Sítio.

A sede da fazenda é um casarão antigo, construído em 1870, com salões, muitos quartos e alcovas, portas e janelas altas e uma ampla cozinha, aquela da Tia Nastácia.


Maria Lúcia nos conta que seu avô comprou a fazenda Buquira há uns 80 anos; ali ela passou a infância, leu os livros de Monteiro Lobato (ela é uma grande leitora!) e hoje desenvolve - com muita dedicação - um belo trabalho em memória do escritor e divulgação de sua obra.

Na Sala Monteiro Lobato, a professora Maria Lúcia lê para os pequenos as histórias da Emília, Pedrinho e Narizinho. Todos os livros do autor estão à venda no Sítio além de bonecas de pano, artesanatos com os personagens do Sítio, doces caseiros feitos com as frutas do pomar e biscoitos orgânicos.

O Banquete Poético é um evento que reúne os participantes para degustar pratos típicos da culinária caipira, preparados a partir de menções que o escritor fazia a respeito de pratos típicos brasileiros. Ou, então, a partir de anotações feitas no caderno de receitas de Dona Purezinha, a esposa do escritor.

Por fim, caminhamos pelo Sítio, rodeados por seus habitantes: cachorros, galinhas, patos, perus,  vacas, um papagaio, um porquinho (o Rabicó?) até chegarmos no Reino das Águas Claras – uma cachoeira majestosa, fonte de água limpa e de inspiração para o escritor.



Biografia (português)

01. Victor Leonardi publicou 17 livros, escreveu roteiro para 31 filmes-documentários, viajou por mais de 80 países e conhece muito bem o Brasil. Está com 68 anos de idade e não teve uma vida rotineira. Estudou na Universidade de Paris, foi professor na Universidade de Brasília, professor-visitante na Unicamp, na Universidade Federal da Paraíba, na Universidade do Amazonas e na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

02. Victor Paes de Barros Leonardi nasceu no dia 15 de outubro de 1942, na cidade de Araras, interior do Estado de São Paulo, onde passou a infância e o início da adolescência. Foi aluno de escolas públicas – Grupo Escolar Justiniano e Colégio Estadual Cesário Coimbra – e morava ao lado da biblioteca municipal, que ele freqüentou assiduamente a partir de 1950. Lia um livro por dia. Seu pai era médico. Sua mãe, professora.

03. O avô materno era dono de uma fazenda de café, a mais antiga do município. O menino passou aí os melhores momentos de sua infância. Seu gosto pelos cavalos e pela agricultura vem dessa época.

04. O avô paterno era marmorista, imigrante italiano nascido em Lucca, Toscana. Veio para o Brasil em 1893 e possuía uma grande marmoraria em Araras, onde trabalharam vários escultores e artesãos italianos. Victor começou a trabalhar, como aprendiz, na oficina dessa marmoraria, a Marmoraria Carrara, em 1952, aos dez anos de idade. Seu fascínio pelas pedras começou nessa época: o mármore é um tema recorrente em sua literatura e a escultura é arte que o atrai com muita força.

05. Quando completou 14 anos, em 1956, Victor fez sua primeira viagem internacional, para o Uruguai e a Argentina. A partir desse momento, nunca mais parou de viajar. Ler, escrever e viajar são três constantes em sua vida. Foi estudar inglês nos Estados Unidos em 1958, em Montevallo, Alabama, e conheceu Nova York , Washington, Chicago e Detroit. Também esteve em New Orleans e tornou-se aficionado do jazz. Visitou o Canadá. Voltou para o Brasil e fez o curso científico no Colégio Bandeirantes, de São Paulo. Estudava biologia com afinco, e também química e física. Queria ser médico, como seu pai.






06. Esteve na Patagônia pela primeira vez em 1959, durante viagem ao Sul do Chile e da Argentina. Tornou-se amigo do escritor paraguaio José Amado Delgado Vera e visitou a capital do Paraguai naquela mesma ocasião. O ano seguinte, 1960, foi o da descoberta do imenso Brasil: Victor e um colega de colégio fotografaram e filmaram, com uma câmera 16 milímetros, a enorme diversidade brasileira vista por eles na Amazônia e no Nordeste.

07. Desiste de estudar medicina (Victor ajudou seu pai, no consultório médico, durante algum tempo) e decide se tornar fazendeiro. Foi para o Sul da Bahia, em agosto de 1961, e comprou 596 hectares de terra no município de Una. Trabalhou como agricultor durante dois anos e sete meses, plantando seringueiras. As terras ficavam em área distante e de difícil acesso. Só se chegava lá a cavalo. Eram 84 quilômetros ida e volta, pela Mata Atlântica. Sem dinheiro para levar adiante esse projeto, Victor voltou a estudar e entrou para a Faculdade de Direito de Ilhéus.




08. Viveu entre Ilhéus e Una até o mês de março de 1964. Tinha fundado um jornal em Una, O Democrata, em 1963, do qual foi diretor. Foi nesse pequeno jornal provinciano que Victor Leonardi publicou seus primeiros textos. Escreveu o primeiro poema nesse mesmo ano de 1963. Nunca mais se afastou da poesia, nos quarenta anos seguintes. Freqüentava assiduamente a vida boêmia do antigo cais do porto de Ilhéus.

9. Tomava posição a favor da reforma agrária, constantemente, nas páginas de seu jornal, mas não pertencia a nenhum partido político. Estudava filosofia do direito com muito interesse. Escreveu vários artigos criticando o autoritarismo dos coronéis do cacau, que ainda dominavam o Sul da Bahia. O jornal O Democrata, dirigido por ele, foi considerado subversivo, após o golpe militar de 1964, o que lhe trouxe inúmeros problemas nos anos seguintes. Alguns colegas da Faculdade de Direito foram presos, em Ilhéus. Victor mudou-se para São Paulo.

10. Foi trabalhar na Promo, uma agência de publicidade paulistana, e aí permaneceu cerca de um ano. Tinha se transferido para a faculdade de direito de São José dos Campos, a Faculdade de Direito do Vale do Paraíba. Estudava à noite, depois de ter trabalhado o dia todo na capital. Vida dura e cansativa. Lia os clássicos da literatura universal com muito mais entusiasmo do que os textos jurídicos. Nos fins de semana, reunia-se nas imediações da biblioteca municipal com Francisco José de Toledo, Yara Amaral e outros amigos, quando, então, o assunto era sempre teatro, cinema e poesia.

11. Entrou para um escritório de advocacia, em 1965, como assistente do Dr. Motta Gonçalves, e freqüentou os vários cartórios das varas cíveis do Fórum de São Paulo. Diante da rotina e do formalismo dos meios forenses, percebeu que havia escolhido a profissão errada. Recebeu seu diploma – de bacharel em ciências jurídicas e sociais – em dezembro de 1966 e guardou-o em uma gaveta, para sempre.

12. Estava desempregado quando resolveu se casar com uma namorada do tempo do Colégio Bandeirantes, Nenilda Garcia Marinheiro, a Nena. Foram casados durante 35 anos e tiveram dois filhos. O casamento foi no interior de Goiás, na cidade de Anápolis, onde Nena era professora. Poucos dias mais tarde, perseguidos pela ditadura (por suas atividades a favor da liberdade e dos direitos humanos), Victor e sua esposa viajaram de Goiás para o Mato Grosso e saíram do Brasil pela fronteira da Bolívia. Era o dia 23 de março de 1967. Foram sete anos de exílio. Por estranha coincidência (o que Victor só soube anos mais tarde, por ocasião da lei de Anistia), a ordem de prisão contra eles foi assinada no próprio dia do casamento, 4 de março de 1967.

13.Durante 14 meses, Victor e Nena percorreram vários países da América do Sul, do Caribe e da América Central. Viajavam de ônibus ou de trem. Ou em navios cargueiros, quando nas Antilhas. O objetivo era ir para o México, o que acabou não acontecendo. Depois de uma curta estada em Nova York, Victor viajou para a França e lá permaneceu seis longos anos. Chegou a Paris em maio de 1968 e viveu intensamente a agitação daqueles tempos de rebeldia, insubmissão e fecundas reflexões teóricas a respeito da sociedade, da arte e da literatura.





14.Enquanto estavam na América Latina, Victor fez trabalhos temporários: como tradutor de uma peça de teatro, em Quito, para a Casa da Cultura Equatoriana, e como radialista, na Guatemala, na qualidade de comentarista de política internacional da Rádio Cadena 1210. Também foi colaborador de jornais colombianos. Na Venezuela, participou das comemorações do 4º centenário de Caracas, com poema que hoje faz parte de um livro de sua autoria, o Livro verde das horas. Esteve na República Dominicana, Haiti, Jamaica, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. Data dessa época a amizade com o pintor argentino Mário Diaz Suarez, de Tucumán. Viajaram juntos para Porto Rico e para o Panamá e chegaram à Europa no mesmo avião em 1968. Mário mora na Alemanha, na cidade de Trier, há quase trinta anos, e Victor prefaciou, recentemente, o grande catálogo comemorativo de seus 50 anos de pintura.

15.Na França, trabalhou em uma organização não-governamental, a Cimade, que ajudava imigrantes portugueses na cidade de Sucy-en-Brie, região parisiense. Estudava à noite na Universidade de Paris, onde fez mestrado em sociologia e os anos iniciais de um curso de doutoramento em História. Pesquisou na Holanda, em arquivos do Instituto Internacional de História Social, de Amsterdã, e na Itália, no Instituto Feltrinelli, de Milão. Também fez curso de História da Arte na Escola de Arte e Arqueologia do Museu do Louvre. A filosofia da história da arte foi definitivamente incorporada ao processo de construção de seu pensamento.





16.Viajou por vários países da Europa, do Oriente Médio e do Norte da África, sempre escrevendo poesia e visitando sítios arqueológicos ou museus de arte. Esteve na Grécia, no Egito, na Jordânia, em Israel, no Líbano, na Síria, na Turquia, na Bélgica, na Bulgária, na Iugoslávia, na Rússia, na Tchecoslováquia, na Inglaterra e na Alemanha. Fez longa viagem pelo deserto do Sahara, em 1970, passando por alguns oásis do sul do Marrocos. Mais tarde, esteve na Mauritânia e no Senegal. Participou ativamente de uma campanha de solidariedade para com o povo da Guiné Bissau, mandando sangue para médicos que trabalhavam em acampamentos guineenses das regiões libertadas, durante a guerra de independência desse país africano de língua portuguesa. Foi à China, em 1971, como pesquisador do IRFED – Institut de Formation et de Recherches em vue du Développement, e lá passou vários meses, durante a Revolução Cultural, percorrendo 11 províncias chinesas. Algumas fotos feitas por ele no Extremo-Oriente foram adquiridas pela enciclopédia francesa Alpha. Esteve em Jerusalém em 1972. Foi correspondente, em Paris, do jornal Opinião, do Rio de Janeiro, em 1973. Essas viagens dos anos 1960 e 1970 – pela América Latina, Estados Unidos, Europa, África e Ásia – acabaram alimentando uma visão de mundo universalista e ecumênica, o que se percebe pela leitura de seus livros, nos quais há motivações e temas bem brasileiros e, também, uma sutil presença de mitos e crenças provenientes da extraordinária diversidade humana por ele contactada nos cinco continentes.









17.De volta ao Brasil, tornou-se professor do Departamento de História da Universidade de Brasília em março de 1974. Victor Leonardi fez pesquisas em vários arquivos históricos das cinco regiões brasileiras, para sua tese de doutorado, mas, em 1976, perseguido novamente pela ditadura, saiu da UnB e foi para a Unicamp, como professor-visitante do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Ele e Paulo Sérgio Pinheiro coordenaram um projeto de pesquisa intitulado Imagens e história da industrialização no Brasil, durante dois anos, na Unicamp, o que deu como resultado uma grande exposição no MASP – Museu de Arte de São Paulo, em 1977, mais um livro, escrito por Leonardi em co-autoria com Francisco Foot Hardman, intitulado História da Indústria e do Trabalho no Brasil, e também uma parceria com os cineastas Lauro Escorel e Adrian Cooper para a localização e recuperação de filmes e fotos antigas de fábricas paulistas do final do século XIX e início do século XX. Victor Leonardi escreveu sobre política internacional para a revista Isto É durante todo o ano de 1977.
18.Em 1978, aceitou convite para coordenar uma série de projetos de pesquisa (sociais e ambientais) no Nordeste, e passou um ano em Maceió, na Secretaria de Planejamento de Alagoas, trabalhando com populações ribeirinhas das grandes lagoas Mundaú e Manguaba. Morava no litoral, em uma vila de pescadores, Riacho Doce. Local paradisíaco. Comprou uma jangada para seu filho Rodrigo, que era bom nadador e mergulhador. Freqüentou festas populares e feiras nordestinas, em Arapiraca e São Luís do Quitunde. Ia com freqüência até Penedo e a foz do rio São Francisco. Fez amizades que conserva até hoje, com Paulo Décio de Arruda Melo, Ronaldo Aroeira e Oswaldo Júnior. Denunciava a tortura e coordenou uma campanha pela anistia para os presos políticos da penitenciária de Itamaracá.


19. Regressou ao Sudeste e passou a morar em Santos, com a família, na Ponta da Praia. Fazia parte do conselho editorial da Editora Kairós, em São Paulo. Escreveu vários artigos a favor das liberdades democráticas e da convocação de uma Constituinte soberana. Esses textos foram publicados em pequenos jornais clandestinos, das oposições sindicais, que desafiavam a censura imposta pela ditadura. Leonardi assinava esses artigos com o pseudônimo M.S.Tocantins, ou Sérgio Tocantins, pois a repressão, naqueles anos de chumbo, ainda era muito forte. Mais tarde, participou da fundação do jornal O Trabalho, editado em São Paulo.

20.Voltou para o Nordeste, como professor da Universidade Federal da Paraíba, e deu aulas no Departamento de Ciências Sociais durante dois anos, no campus de João Pessoa. Tinha casa na praia, em Cabedelo, e aí escreveu a novela Radamanto, depois de muitas conversas com os pescadores de baleia do porto de Costinha. Viajou várias vezes pelo sertão da Paraíba e do Rio Grande do Norte.

21.Mudou-se para Pernambuco e passou um ano em Recife, morando na praia de Boa Viagem. Desiste da tese de doutorado e decide se dedicar prioritariamente à literatura, e assim se mantém até hoje. Torna-se amigo do pintor Raul Córdula, que na época morava em Olinda, onde também residia o sociólogo canadense Ivan Labelle e o historiador Geraldo Prado, seus amigos há vários anos. Olinda é uma das cidades que Victor mais gosta. Tinha começado a escrever ficção em 1979 mas não parou de escrever poesia nos anos seguintes. Começou a redigir, lá no Nordeste, o livro de contos Navio brasileiro em águas profundas.

22.Em dezembro de 1982, a família Leonardi mudou-se de Recife para a Espanha, estabelecendo residência na Andaluzia, em Benalmadena Pueblo, província de Málaga. Victor fez pesquisas em arquivos espanhóis e portugueses e redigiu um ensaio de 430 páginas intitulado Entre árvores e esquecimentos. Nena dedicava-se à pintura e sua filha Juliana dançava flamenco. Victor escreveu uma fábula, para crianças, intitulada Montanha do Meio do Mundo, e ele mesmo fez os desenhos que ilustram esse livro. Foram quatro anos muito produtivos, esses, da Espanha, pois Victor continuou escrevendo ficção e o resultado foi o livro Quando o escriba do castelo era eu. Viajou pela Finlândia e pela Suécia, em 1985, em companhia do poeta finlandês Pekka Parkkinen. Fez curso de cerâmica e modelagem com uma escultora espanhola de Málaga e até hoje gosta de se distrair com barro ou pedras, como escultor amador.

23.Com a anistia decretada pela Assembléia Nacional Constituinte, Victor Leonardi voltou ao Brasil para lecionar novamente no Departamento de História da Universidade de Brasília, em maio 1987, após onze anos de ausência. Permaneceu em Brasília até se aposentar e aí escreveu vários ensaios, entre eles Jazz em Jerusalém e Os navegantes e o sonho: Presença do Oriente na História do Brasil. Foi membro do conselho editorial da revista Humanidades, da UnB. Criou o curso de História das Religiões, no Departamento de História, e durante alguns anos reuniu alunos interessados pela história do budismo, do taoísmo, do judaísmo, do islamismo e do cristianismo primitivo. No livro Jazz em Jerusalém, expõe seu pensamento de forma completa e articulada: uma filosofia do trabalho criativo, com inventividade e tradição dialogando permanentemente e questionando, assim, a suposta incompatibilidade entre o pensamento clássico e a modernidade.

24.Passou a fazer parte, em 1987, do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares, da UnB, que possui um Núcleo de Estudos Amazônicos, e aí desenvolveu vários projetos. Um deles chamava-se Projeto Natterer e foi feito em parceria com o Museu Amazônico, de Manaus. Victor Leonardi, Andréa Fenzl e o historiador amazonense Geraldo Pinheiro foram até a Áustria, em 1996, em companhia do fotógrafo Juan Pratginestós, e aí localizaram e fotografaram, em um museu de Viena, o Museum für Völkerkunde, centenas de peças etnográficas coletadas por Johann Natterer na Amazônia há 170 anos. O resultado foi uma exposição itinerante que passou por dez museus brasileiros nos anos seguintes.




25.Nesse mesmo ano de 1996, Leonardi permaneceu um semestre em Manaus, trabalhando no Museu Amazônico, e aí redigiu o livro Os historiadores e os rios, que trata da história do Velho Airão, cidade amazonense em ruínas, às margens do rio Jaú, fundada em 1694, completamente abandonada, sem nenhum habitante há mais de quarenta anos. Visitou essas ruínas em companhia de duas arqueólogas do Rio de Janeiro e redigiu uma proposta de tombamento do Velho Airão pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A proposta foi assinada por Leonardi, Geraldo Pinheiro, José Ribamar Bessa Freire e outros historiadores, mas, infelizmente, nunca foi aprovada e hoje as ruínas (a igreja é de 1702) estão sendo danificadas.

26.No ano 2000, Victor Leonardi e o biólogo Cezar Martins de Sá organizaram e coordenaram uma grande expedição científica pela Amazônia Venezuelana e Amazônia Brasileira, a Expedição Humboldt. Dessa longa viagem participaram 49 pesquisadores, entre eles João Lúcio Azevedo, Jader Marinho, Leonardo Ferreira, Alain Laraque, Philippe Magat, Pascal Kosuth, Naziano Filizola, André Carvalhaes, Sérgio Borges, Geralda Dias, Jaime Sautchuk, Fernando Soares, Tarcísio Cordeiro, Candace Slater, Fabian Borghetti, Cristiano Borghetti, Francisco Jorge dos Santos, Maurício Lima Wilker, Carlos Augusto da Silva, Juan Pratginestós, Guilherme Carrano, Maria Anália de Souza, Consolación Udry, Frederico Rêgo, Edson Toledo, Isabella Fagundes, Andrea Brugin, Daniela Coelho, Jackson Semerene Costa, Ivan Maciel, Nelson Soriano Wanderlei. Além dos historiadores, participaram professores de zoologia, botânica, biologia molecular, hidrologia, saúde pública, geoquímica, geografia, ecologia, mitologia, astronomia e arqueologia. Navegaram e pesquisaram no canal do Cassiquiare, no paraná do Ramos e nos rios Orinoco, Negro, Amazonas, Maués Açu, Uatumã, Urubu, Nhamundá, Trombetas, Tapajós, Xingu, Jari e Oiapoque. O percurso foi feito em dois barcos, um dos quais possuía biblioteca e equipamentos para pesquisas. Foram 62 dias a bordo e 9.200 quilômetros navegados entre o Caribe (baixo Orinoco) e Belém do Pará. O resultado foram vários artigos científicos, 10 mil fotos, 1 filme-documentário e uma exposição de pintura, do artista plástico Rômulo Andrade. O jornalista Nicolas Reynard, da revista National Geographic, acompanhou a expedição e fez relatos diários para o seu site mundial. O filme-documentário intitula-se Expedição Humboldt e foi feito por Leonardi, Luiz Carlos Saldanha e Frederico Rêgo.






27.A partir de 1987, como pesquisador do Núcleo de Estudos Amazônicos da UnB, ou em companhia do antropólogo e indigenista Ezequias Heringer Filho (Xará), Leonardi esteve em várias aldeias indígenas do Amapá (índios Waiãpi e Karipuna), Roraima (índios Yanomami), Amazonas (índios Munduruku) e Mato Grosso (índios Bakairi e Nambikwara). Participou, como observador, do 1º Encontro Nacional de Pajés, em 1987, no Mato Grosso, dedicado ao estudo de plantas medicinais e do xamanismo. Leonardi foi um dos fundadores de Terra das Águas – Revista de Estudos Amazônicos da UnB, e é membro de seu conselho editorial. O editor da revista é o professor Kelerson Semerene Costa.

28.Após obter uma licença sabática de seis meses, viajou pela Índia e pelo Nepal, no primeiro semestre de 1989. Visitou comunidades jainistas, hinduístas e budistas. Esteve em Katmandu e em Pokhara, visitando oficinas de pintores e escultores de mandalas. Passou por inúmeros vilarejos do Himalaia, na fronteira tibetana, e fez longa travessia, a dorso de elefante, de um parque nacional, para fotografar rinocerontes, na fronteira do Nepal com a Índia. Surgiu então, lá na Ásia, a idéia de escrever o livro Os navegantes e o sonho, que trata da presença do Oriente na história do Brasil. O livro foi escrito e está baseado em vasta bibliografia encontrada por Leonardi em Goa e, também, em material coletado em suas viagens de estudo pela China (1971) e por 16 países mulçumanos, visitados por ele nos anos 1970.





29.De volta ao Brasil, encontrou-se com o cineasta carioca Sérgio W. Bernardes, dando início a uma longa parceria para a produção de filmes-documentários. O primeiro foi feito no rio Xingu, em 1989. O segundo, Panthera Onça, foi filmado no Pantanal e ganhou o primeiro prêmio na Jornada de Cinema e Vídeo da Bahia, em 1991, com música do maestro e compositor Guilherme Vaz. Depois trabalharam na Amazônia e foram até o Canal do Cassiquiare, em 1993. Também filmaram no deserto do Atacama (Chile) e no lago Titicaca (Bolívia), em companhia de Ricardo Monte Rosa, para um projeto da Ema Vídeo.

30.Em 1992, Leonardi encontrou-se com o cineasta paulista Renato Barbieri, em um festival de vídeo realizado em Aracaju. Foi o início de mais uma parceria, que levou-os a fazer pesquisas e escrever roteiros para vários documentários, filmados no Maranhão, na Bahia, na África, na Itália, em Portugal, em Cuba, na Espanha e nos Estados Unidos. O filme Atlântico Negro: na rota dos orixás, filmado em aldeias africanas do Benin (sobre as origens do candomblé e do vodu), foi selecionado e exibido no festival internacional de cinema de Cannes, em 1999. Os textos in off, escritos por Leonardi e Barbieri, foram gravados pelo ator João Acaiabe.







31.Victor Leonardi e Nilson Araújo produziram um filme-documentário, em 1996, sobre a vida dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. Foi filmado em Manhattan e Newark e se chama Brasileiros em Nova York. O roteiro e a edição foram feitas por Leonardi, Frederico Rêgo, Isaque de Carvalho e Kuroki. Nesse mesmo ano, por solicitação do Ministério do Meio Ambiente, escreveu o roteiro de um documentário intitulado O destino de nossas florestas, que trata do problema do desmatamento, na Amazônia e na Mata Atlântica, e das políticas de sustentação ambiental.

32.Leonardi e Barbieri percorreram vários estados brasileiros – Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia – filmando um longa-metragem sobre a vida de Gabriel Malagrida, jesuíta italiano que viveu 40 anos no Brasil, no século XVIII, e que foi queimado pela Inquisição em 1761. Adrian Cooper, Andréa Fenzl e Chico Bororo faziam parte da equipe. Algumas cenas foram filmadas em Lisboa, Milão, Gênova e Menaggio, onde Malagrida passou uma parte da vida. O filme foi exibido no Brasil e na Itália e premiado em Roma pela União Latina – Prêmio Grinzane Cavour – em 2002.




33.Leonardi e Barbieri escreveram o roteiro de um documentário produzido pela TV Educativa, do Rio de Janeiro, e pela TV Escola, em 1999. Chamava-se A Idade do Brasil e foi filmado no Espírito Santo, Bahia, Ceará e Maranhão. Esse programa, exibido em rede nacional de TVs públicas, foi visto por 27 milhões de espectadores no dia 12 de dezembro de 1999. Nessa ocasião, o Ministério da Educação publicou dois livretos de 60 páginas, com textos de Leonardi, intitulados A Idade do Brasil, com tiragem de 110 mil exemplares cada um. Nesse mesmo ano de 1999, Leonardi foi contratado por José Roberto Sadek, diretor da TV Escola, como consultor e revisor de roteiros de uma série de 16 programas de televisão sobre História do Brasil. A série foi produzida em Recife pela Fundação Joaquim Nabuco. Intitula-se 500 Anos na TV e foi feita com atores e bonecos. Foi ao ar pela TV Escola (do Ministério da Educação) e, anos mais tarde, pela TV Câmara.

34.Victor Leonardi fez pesquisas sobre a história do Planalto Central e escreveu o roteiro de um filme-documentário intitulado A invenção de Brasília. Dirigido por Renato Barbieri, esse filme foi exibido várias vezes pela TV Cultura, de São Paulo, e contém entrevistas com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Os textos in off, escritos por Leonardi e Barbieri foram gravados pela atriz Fernanda Montenegro.

35.Leonardi, Barbieri, Delvair Montagner e Rui Faquini produziram um filme-documentário sobre terras remanescentes de quilombos no Brasil, por solicitação da Fundação Palmares. Foram filmados três quilombos: um no Maranhão, um no rio Grande do Sul e um em Goiás. Os textos in off, escritos por Leonardi e Barbieri, foram gravados pela atriz Zezé Mota.

36.Com Barbieri, Valdir de Pina e Alex Ribondi, Victor filmou, em Rondônia, um documentário sobre o problema do tráfico de drogas na fronteira boliviana, e também sobre a recuperação de dependentes químicos em uma instituição chamada Casa Família Rosetta, de Porto Velho, criada pelo sacerdote italiano Vincenzo Sorce. No mesmo ano, filmou instituições semelhantes em Campinas e Guaratinguetá: a Apot e a Fazenda Esperança. Filmou também, em 2002, na cidade de Belém do Pará, um documentário sobre o Círio de Nazaré, por solicitação do Ministério da Cultura. Trata-se da maior romaria fluvial do mundo e uma das mais importantes festas populares e religiosas da Amazônia.

37.Em 2005, Leonardi, Renato Barbieri e Adrian Cooper filmaram em Nova York e em St. Augustin (Flórida) a vida do sacerdote cubano Felix Varela, que viveu no Five Points nos anos 1820 e 1830, entre imigrantes irlandeses e italianos. Esse local fica hoje dentro de Chinatown. As demais cenas foram filmadas em Havana, Madri, Sevilha e Cádiz.

38.Leonardi e Barbieri escreveram roteiro e produziram dois filmes-documentários para dois canais norte-americanos de televisão, da rede H.B.O. Um deles trata da vida do cartunista brasileiro Maurício de Sousa e foi filmado para o canal A&E – Art and Entertainement, em 2006. O outro tem como tema as origens históricas das cidades de Recife e Salvador e foi produzido para o canal The History Channel, também em 2006.

39.Victor Leonardi começou a estudar as fronteiras do Brasil em 1997, com financiamento das Nações Unidas (Unesco e Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). As pesquisas tinham sido solicitadas pelo Ministério da Saúde, para a UnB, e Leonardi encarregou-se de executá-las. Não deu mais aulas na universidade e passou a viajar para as fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia e Peru. Entre uma viagem e outra, permanecia algum tempo em Brasília, estudando o material coletado (documentos, entrevistas) e orientando seus assistentes que faziam pesquisas em bibliotecas, arquivos e centros de documentação da capital federal. O objetivo era o de fornecer subsídios para uma política de prevenção da Aids nas fronteiras, por isso estudou e conviveu, nos confins da Amazônia, com garimpeiros, pescadores, posseiros, soldados, madeireiros, pequenos comerciantes, prostitutas, caminhoneiros e imigrantes brasileiros que vivem em países vizinhos. O resultado foi o livro Fronteiras Amazônicas do Brasil: Saúde e História Social.

40.Nova pesquisa, com objetivo semelhante, foi solicitada em 2002, e Victor passou a freqüentar as fronteiras do Brasil com o Uruguai, a Argentina, o Paraguai e a Bolívia. Estudou a violência fronteiriça e a atuação do crime organizado, com apoio do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e o Crime (UNODC). O resultado foi o livro Violência e direitos humanos nas fronteiras do Brasil: História social da Aids, das drogas e de sua prevenção, que tem prefácio de Giovanni Quaglia, juiz de direito italiano. Neste prefácio, Quaglia – conhecido internacionalmente por ter participado, na Itália, da Operação Mãos Limpas, de juízes contra a Máfia – afirma que este livro "representa um marco para a pesquisa social da Aids, que a partir de agora terá sempre de considerar o impacto da violência como facilitador do processo de expansão da epidemia". No decorrer desta pesquisa e da anterior, Leonardi acabou percorrendo todos os municípios da linha divisória (de jipe, caminhão, avião, canoa), do Oiapoque ao Chuí, isto é, do Amapá ao Rio Grande do Sul. A linha divisória tem 15.719 quilômetros. Escreveu muito sobre histórias regionais e locais: Brasiléia, Guajará Mirim, Cáceres, Corumbá, Ponta Porã, Guaíra, Foz do Iguaçu, São Miguel do Oeste, Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé, Jaguarão, Santa Vitória do Palmar, Chuí.

41.Passou o segundo semestre de 2001 nos Estados Unidos, como professor-visitante da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, onde ofereceu dois cursos, um sobre o Brasil contemporâneo (baseado em autobiografias de escritores brasileiros) e outro sobre a literatura latino-americana relativa à Amazônia. Visitou San Francisco inúmeras vezes e percorreu bosques de sequóia no norte da Califórnia. Antes de voltar para o Brasil, passou por Las Vegas e pelo Hawaí.

42.Ao completar 60 anos, Victor Leonardi, já aposentado, esteve várias vezes na Itália e na Grécia. Retomou contato com os marmoristas e músicos Leonardi, que vivem na Toscana (em Forte de Marmi, Querceta e Pietrasanta), freqüentou o Museu do Mármore, em Carrara, e incorporou vários fatos interessantes aos textos autobiográficos que está escrevendo neste momento: uma trilogia intitulada As palavras, o fogo e as pedras. Na Grécia, onde esteve pela primeira vez em 1969, apaixonou-se pela ilha de Samos, no mar Egeu, e lá passou longas temporadas em diferentes ocasiões. Uma parte do livro Jazz em Jerusalém foi escrito nessa ilha grega. Pitágoras, Epicuro e Aristarco nasceram em Samos. Foi aí que Heródoto passou a juventude e que Esopo escreveu muitas de suas fábulas.




43.Nena Leonardi faleceu em junho de 2002. Ela e Victor tinham acabado de voltar de uma viagem a Veneza. Nena havia sido professora do Departamento de Artes Visuais, da UnB, nos dez anos anteriores.

44.Alguns meses após a morte de Nena, Victor mudou-se para o Rio de Janeiro. Morava sozinho, em um apartamento no Recreio dos Bandeirantes, onde lia e escrevia sem parar. Saía raramente, para ouvir música. Dois anos mais tarde, construiu uma casa-biblioteca no litoral norte do Rio, ao lado de uma pequena praia do município de Búzios, onde agora passa várias temporadas, escrevendo. Durante esse mesmo período, também teve casa na serra, pequena casa entre montanhas, alugada por ele no município de Nova Friburgo, em uma vila chamada Rio Bonito de Lumiar. É um lugar onde ele se sente muito bem.

45.Depois de 46 anos de ausência, voltou a freqüentar a cidade onde nasceu, Araras, aí retomando antigas amizades. Tinha saído de lá no dia 15 de dezembro de 1957. Ficou conhecendo Márcia em Araras e juntos estão vivendo desde o mês de abril de 2005. Márcia Michielim Tonholi é psicóloga e nasceu em Araras em 1963. Ela e Victor passam a maior parte do tempo entre Florianópolis e Búzios. Em 2005, ambos trabalharam no Centro de Produção Cultural e Educativa (CPCE), da UnB, na produção de um filme-documentário dirigido por Armando Bulcão e Tânia Montoro, intitulado Hollywood no cerrado, que trata da vida de atores e atrizes do cinema americano – Janet Gaynor, Mary Martin, Joan Lowell – que viveram em Goiás nos anos 1930, 1940 e 1950. David Pennington e Paulo Bertran participaram dessas filmagens.

46.O filho mais velho de Victor, Rodrigo Leonardi, nasceu em Paris em setembro de 1970. É matemático e astrônomo. Fez doutorado em astrofísica no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, em São José dos Campos, e passou um ano nos Estados Unidos pesquisando no radiotelescópio de White Mountain. Hoje trabalha na Nasa e pertence ao Departamento de Física da Universidade da Califórnia, campus de Santa Bárbara. Passou alguns meses na Itália, em 2.006, no Instituto de Astrofísica, de Milão, vinculado ao projeto de lançamento do satélite Planck. Rodrigo é especialista em radiações cósmicas de fundo.


47.Juliana Leonardi, filha de Victor, nasceu em Goiânia em março de 1974. É formada em História e Musicoterapia. Estudou um ano na Noruega e quatro anos na Espanha. Dançava flamenco quando criança e faz atualmente um curso de doutorado em enfermagem psiquiátrica. A menininha dessa foto é a neta Marina.

48.O editor Massao Ohno, de São Paulo, publicou dois livros de poesia de autoria de Victor Leonardi: Livro verde das horas, com prefácio do poeta Franz Rulli Costa, e Território do escritor. Ambos contêm notas introdutórias escritas por Luís Bogo e capas feitas com quadros de Arcângelo Ianelli. O terceiro livro de poesia – A arte de viajar à deriva e ressurgir com paixão – foi editado no Rio em 2003. O quarto e quinto livros de poesia foram publicados pela editora Paralelo 15, de Brasília: Em sintonia com o imprevisível (2008); Tambores e letras na guerra que anula o sinal de morte (2010).

49.Valentim Facioli, da Nankin Editorial, publicou em São Paulo o primeiro livro de ficção de Leonardi, Quando o escriba do castelo era eu, em 2001, e também o ensaio Jazz em Jerusalém, em 1999. Em 2010, a Nankin publicou o livro de contos Navio brasileiro em águas profundas.
Em matéria intitulada "Leonardi pratica o fascinante jogo da imaginação", Francisco Costa disse o seguinte, em maio de 2002, a respeito do Escriba, nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo:
"A leitura é tão agradável, tão envolvente, que a custo se larga o volume. A perspectiva de linguagem é tão nova, o foco de atenção tão interessante, que a única palavra que me ocorre para explicar a prosa de Victor Leonardi é: lavor. Sim, é de um fino lavor esse texto ficcional que corre diante dos olhos".
Marcelo Rollemberg, por sua vez, escreveu o seguinte no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, em março de 2002: "Nas histórias de seu livro, Leonardi cria situações nas quais seus personagens humanos vivem enredados por uma trama muito maior que eles. A trama das palavras. É fato ou ficção? Terá mesmo acontecido ou não? Mas isso, antes de ser um obstáculo, é mais um ingrediente sedutor na escrita de Leonardi. É esse jogo de palavras que torna seu livro interessante e diferente".

50.A Editora Global publicou, em São Paulo, em 1982, a primeira edição de História da Indústria e do Trabalho no Brasil, escrito em co-autoria com Francisco Foot Hardman. A segunda edição foi feita pela Editora Ática em 1.991.

51.Os demais livros foram editados pela Paralelo 15 em co-edição com a Editora Universidade de Brasília: Entre árvores e esquecimentos (1996); Os historiadores e os rios (1999). A Paralelo 15 publicou ainda: Os navegantes e o sonho (2005); Fronteiras amazônicas do Brasil (2001); Violência e direitos humanos nas fronteiras do Brasil (2007). O ensaio Exercícios de liberdade foi publicado em Guaratinguetá pela Fazenda da Esperança, em 2009. A fábula Montanha do Meio do Mundo foi editada em 2010 pela Gaia Filmes.

52.Além desses livros, Victor Leonardi escreveu capítulos de obras coletivas: História do Século XX (Editora Abril, 1974), Brasil História (Editora Brasiliense, (1979) e, em espanhol, História General de América Latina, publicada em Madri, no ano 2000, pela Editorial Trotta. Escreveu também o texto do livro Estrada Colonial no Planalto Central, com fotos de Rui Faquini e mapa de Bismarque Vila Real (Editora Instituto Paidéia, 2006). Participou do livro de poesias intitulado Araras cidade das árvores, organizado por Maria Cecília Leite. Contém poemas de Maria Cecília Leite, Adriana Dezotti Fernandes e Victor Leonardi. As fotos são de César Saullo.

53.Além dos 17 livros já editados e de sua participação em cinco obras coletivas, Leonardi ainda tem três livros de ficção inéditos, prontos para publicação: Vinho para leitores de Goethe; Jogo da coragem, da ficção e da lâmpada; Na caverna de Cronos.

54.Victor Leonardi continua trabalhando na trilogia autobiográfica As palavras, o fogo e as pedras, formada por três volumes independentes: Um salto no escuro; Serpentinata e Nuvens a bordo. Escreve essa obra lentamente, há vários anos, nos intervalos entre uma atividade e outra, e só pretende publicá-la quando seus livros ainda inéditos tiverem sido editados. O primeiro volume da trilogia começou a ser escrito em 1982. A decisão de escrevê-lo está relacionada com a iminência da morte durante acidente de barcos e naufrágio no rio Solimões, na tríplice fronteira amazônica do Brasil com o Peru e a Colômbia. Viajava em um desses barcos em companhia de seu filho Rodrigo, então com 11 anos de idade.

55.Foram publicados comentários sobre seus livros na revista Veja e nos jornais O Globo, do Rio de Janeiro, e O Estado de S. Paulo. Também há referências na revista Bravo!, de janeiro de 2003, em artigo intitulado "A novíssima literatura brasileira". Quanto a projetos de sua autoria – Expedição Humboldt, Projeto Natterer, tombamento das ruínas do Velho Airão pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –, a mídia tem noticiado todos eles: revista Isto É, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense, Jornal de Brasília, revistas do CNPq, do Ipea e da Embrapa. Os interessados encontrarão muitas páginas no Google se procurarem pelo nome Victor Leonardi.

56.Filmes com roteiro de Victor Leonardi e direção de Renato Barbieri participaram de vários festivais de cinema no Brasil e no exterior: França, Estados Unidos, Bélgica, Portugal, Alemanha, Itália, Holanda, Benin, Namíbia, Panamá, Equador e Argentina. Os principais são os seguintes:
- 4º Urban World Film Festival. New York, 1999.
- PanAfrican Film Festival. Los Angeles, 2002.
- New Orleans Jazz Festival. New Orleans, 2000.
- Cinquante ans de cinéma brasilien. Paris, 1999.
- 19º Bilan du Film Etnographique. Musée de l’ Homme. Paris, 2000.
- 52º Festival Internacional de Cinema de Cannes. Cannes, 1999.
- African Film Festival in Leuven. Louvain, Bélgica, 2001.
- Festival de Cinema de Tróia. Setúbal, Portugal, 2000.
- Multimídia World Forun. Roma, 2001.
- Médio@rte Latino. Berlim, 2002.
- África in the Picture. Holanda, 2001.
- Encontro Internacional do PPG-7. Bonn, 1996.
- Pré-Input. Panamá, 2000.
- Abertura do 31º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Brasília, 1998.
- 4º Festival Internacional de Documentários "É Tudo Verdade". São Paulo,
1999.
- 6º Festival Internacional do Filme Etnográfico. Rio de Janeiro, 1999.
- 2º Festival Internacional do Filme Etnográfico e Documentário. Belo Horizonte, 1998.
- 2ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Tiradentes, MG, 1999.
- 6º Festival Vitória Cinevídeo. Vitória, Espírito Santo, 1999.
- Jornada de Cinema da Bahia. Salvador, 1991.
- Jornada de Cinema da Bahia. Salvador, 1999.
- 7º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Mato Grosso, 1999.
- 3º FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental. Goiás, 2001.
- 21º Festival Guarnicê de Cine Vídeo. São Luís, Maranhão, 1998.

57.Os seguintes filmes de Leonardi e Barbieri foram premiados:
Atlântico Negro: Prêmio Margarida de Prata, da CNBB, 1999.
Atlântico Negro: Prêmio Pierre Verger, da Associação Brasileira de Antropologia, 2.000.
Atlântico Negro: Prêmio M. Diegues Júnior do 6º Festival Internacional do Filme Etnográfico, 1999.
Atlântico Negro: Prêmio Filma Brasília, do Pólo de Cinema e Vídeo de Brasília, 1998.
Atlântico Negro: Prêmio Câmera de Cinema do 31º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 1998.
Atlântico Negro: Melhor Documentário e Melhor Fotografia do 6º Vitória Cine Vídeo, 1999.
Atlântico Negro: Melhor Documentário do Júri Oficial e do Júri Popular do 6º Festival de Cinema de Cuiabá, 1999.
Malagrida. Prêmio Internacional de Finalização, da Signis – OCIC – Quito, 2000.
Malagrida: Prêmio Grinzane Cavour, União Latina. Roma, 2002.
Na corda do Círio: 1º Festival Catarina de Documentário. Joinville, 2002.

58.Victor Leonardi escreve a lápis. Nunca usou computador, máquina de escrever ou caneta. Sua tecnologia é de uma simplicidade absoluta: lápis e folhas brancas de papel. Até este momento, não tinha site ou blog na internet. Não pertence a nenhum grupo político há 25 anos e não faz nenhum esforço para ganhar espaço na mídia. Mas gosta, sim, de manter contato com seus leitores e de conversar sobre viagens.


59.Há dias em que ele bebe bons vinhos. Há dias de muita felicidade na companhia de Márcia. E há dias em que se consagra à única tarefa de dormir e sonhar. Sonhos e mitos estão muito presentes em sua literatura.




Navio brasileiro em águas profundas


Nankin Editorial - São Paulo, 2010 - 208 páginas
ISBN 978-85-7751-052-8
Sinopse
Em águas profundas, e em três movimentos sucessivos, de fora para dentro, o autor convida o leitor para acompanhá-lo nesta viagem serpentina, em espiral, que começa no exterior - França, Itália, Holanda, Índia, China, Panamá, Equadro, Guatemala, - de um jeito bem brasileiro, e termina no Brasil, em diferentes cidades onde Leonardi viveu e exercitou sua imaginação.
Os textos aqui reunidos têm muito a ver com o tema "fronteiras", sobre o qual o autor já escreveu dois outros livros. Fronteira entre o Norte e o Sul, ou entre o Oriente e o Ocidente, onde vivem tipoas raianos e extremos. Fronteira não é apenas raia, linha divisória entre dois países. É, também, aquele espaço indefinível que não é mais ciência e ainda não é arte. Ou aquele momento final que não é mais vida mas ainda não é morte. Todas as intersecções poéticas, possibilitadas por esta viagem, são fronteiras: ficção e realidade; sonho e vigília, passado e presente; sanidade e loucura.
Onde começa um e onde termina o outro? É impossível dizer, os contos de Leonardi estão repletos de figuras desse tipo, ou cortes desse tipo: pontos em que dois ou mais planos, ou trajetórias de vida, se cruzam. pontos abstratos: ninguém sabe exatamente onde se cruzam, nem quando.

Mandalas Flutuantes





Gosto de desenhar e de pintar. Isso me distrai e dá muito prazer. Nunca tive vontade de me tornar artista plástico, porém gosto de “brincar” com cores e formas. Fiz as ilustrações de meu livro Montanha do Meio do Mundo (mais de 50 desenhos, de personagens inventados por mim), desenhei quatro ursos, que estão hoje na parede de meu escritório, devidamente emoldurados, e acabo de desenhar uma série de 30 mandalas. Estudo esse tema, mandalas, desde que fui ao Nepal, em 1989. Jung escreveu muito, sobre mandalas, e eu redigi algumas pequenas frases que resumem o que penso a esse respeito. Essas frases servem de introdução ao vídeo-arte que acabo de produzir, chamado Mandalas flutuantes. Os desenhos são de minha autoria, a música é do compositor tcheco Bedrich Smetana (1824-1884) e a edição do vídeo, que muito me agradou, foi feita por Pedro Mattos, de um jeito muito profissional e criativo. Divirtam-se com essas imagens. O vídeo dura 4 minutos e 42 segundos.




Conversas antigas com meu pai


Scortecci Editora - São Paulo, 2010 - 91 páginas
Capa: Paul Klee, Freundliches Spiel
http://www.scortecci.com.br/
editora@scortecci.com.br

Neste livro, o autor presta uma homenagem a seu pai, o médico Vitor Leonardi, por ocasião do centenário de seu nascimento, comemorado em julho de 2010.
Trata-se de uma síntese biográfica da vida de seu pai, escrita a partir de inúmeras conversas que ambos mantiveram ao longo dos anos.

Quando o escriba do castelo era eu

Nankin Editorial - São Paulo, 2000 - 111 páginas
ISBN 85-86372-27-7
http://www.nankin.com.br/
nankin@nankin.com.br

Sinopse

Este foi o primeiro livro de ficção publicado por Victor Leonardi. Contém cinco narrativas que podem ser lidas separadamente, embora os conteúdos tenham algo em comum. A primeira tem como tema central o livro (um livro que mata todo aquele que tenha levado vida medíocre); a segunda tem como tema o leitor (uma leitora ideal, que desaparece sem deixar vestígios depois de ter escrito cartas deliciosas para o narrador); a terceira aborda o tema das letras e contém um jogo de idéias - misterioso, enigmático - em busca da palavra exata, a mais adequada, a insubstituível na vida do jogador - narrador; a quarta tem como mote a própria literatura, que é apresentada por meio de uma comparação com a pintura de objetos invisíveis; a quinta e última narrativa trata do tema das bibliotecas e é a mais longa pois é em parte autobiográfica, revisitando o castelo francês de Sucy-en-Brie, onde Victor Leonardi viveu durante os anos de 1969, 1970 e 1971. Foi nesse Château de la Haute Maison que seu filho Rodrigo passou a primeira infância.
Essa quinta narrativa reúne em si todo o clima ficcional criado pelas anteriores: nunca se sabe o que é ficção e o que é realidade, embora as invenções do narrador sejam convincentes e mais verdadeiras do que os fatos vividos pelo autor na França, naquela fase de sua vida.
Nesse castelo da região parisiense, construído no século IX (a fachada é renascentista), viveram pessoas ilustres, nos séculos XIX e XX, entre elas Jacques Halévy, que foi músico e compositor, tendo estreado na Ópera Comique com Manon Lescaut. Era um homem brilhante, chegou a ter Gounod e Bizet como seus alunos. No mesmo château morou Leon Halévy, poeta e colaborador de Saint Simon. Em tempos mais recentes, André Gide passava férias nesse castelo. Também foi em Sucy-en-Brie que Diderot escreveu, no século XVIII, uma parte da Enclyclopédie.
Quando Leonardi foi morar em Sucy, o château já estava semi-arruinado há muito tempo. Sobraram grandes salões, escadarias monumentais, espelhos de grande porte e um túnel secreto que ligava Sucy ao castelo vizinho, de Boissy-St.Léger. Leonardi trabalhava como intérprete, pois o Château de la Haute Maison havia sido transformado em hospedaria de imigrantes. O cotidiano rústico desses operários imigrantes (argelinos e portugueses, mais de 200) contrastava vivamente com o passado refinado e erudito dos antigos proprietários do castelo, e isso serve de recurso literário para que o narrador crie um ambiente charmoso e surreal, com leituras e vivências se entrecruzando.
Durante os três anos em que morou em Sucy, Leonardi escrevia cartas, regularmente (duas ou três por dia), para trabalhadores portugueses que não sabiam escrever. Eram cartas de cunho pessoal, que os operários ditavam e o escritor redigia e mandava para Portugal. Foi um contato extraordinário com temas portugueses da região de Leiria e Vila Nova de Ourém: recados para filhos lavradores; notícias para mulheres saudosas; reclamações sobre o preço das coisas na França; propostas de casamento; pedidos de ajuda; lamentações sobre o falecimento de velhos amigos. Sobre tudo isso Leonardi escrevia. E, algumas semanas mais tarde, lia as respostas para os operários. Ou seja, Leonardi foi um verdadeiro escriba, na França, e sua narrativa recria literariamente o ambiente paradoxal daqueles tempos posteriores ao maio de 1968. Victor Leonardi chegou à França no dia 13 de maio de 1968 e aí passou seis anos. Trabalhava nesse castelo e estudava na Universidade de Paris. "Biblioteca da utopia" é o título desta quinta narrativa.
Este livro, muito bem recebido pela crítica, foi comentado com destaque em São Paulo e no Rio de Janeiro nas páginas de O Estado de S. Paulo e O Globo. Também foi mencionado em artigo da revista Bravo! a respeito da novíssima literatura brasileira.

Resenhas

Francisco Costa
, do Jornal O Estado de S. Paulo, escreveu o seguinte, no Caderno 2, em matéria intitulada "Leonardi pratica o fascinante jogo da inovação", publicada no dia 18 de maio de 2002:

"A maior dificuldade a respeito de Quando o escriba do castelo era eu, de Victor Leonardi, é fechar o livro. Por uma razão muito simples: a leitura é tão agradável, tão envolvente, que a custo se larga o volume. A perspectiva de linguagem é tão nova, o foco de atenção tão interessante, que a única palavra que me ocorre para explicar a prosa de Victor Leonardi é: lavor. Sim, é de um fino lavor esse texto ficcional que corre diante dos olhos (...). A exemplo de outros escritores de raro porte, a grande força do texto de Victor Leonardi não se encontra no que é contado, mas sim no como isso se realiza".

Marcelo Rollemberg, por sua vez, escreveu o seguinte no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, no caderno Prosa & Verso do dia 2 de março de 2002:

"As palavras têm uma força que transcende à sua própria expressividade, ganham corpo, forma e vida independentes, criando mundos além de seus significados estritos. Os cabalistas e místicos sempre souberam do poder que as palavras possuem e do cuidado que devemos ter ao pronunciá-las ou escrevê-las. É isso que as torna tão tentadoras, tão sérias - e tão perigosas. Em Quando o escriba do castelo era eu, recentemente publicado pela Nankin Editorial, o paulista Victor Leonardi trata exatamente desse misto de tentação e assombro que as palavras são capazes de inspirar, criando cinco narrativas nas quais os personagens principais, de fato, não são de carne e osso, e sim vocábulos. Explica-se: nas histórias de seu livro, Leonardi cria situações nas quais seus personagens humanos vivem enredados por uma trama muito maior do que eles. A trama das palavras. As digressões que Victor Leonardi faz em seu livro, podem, por vezes, tornar a leitura por demais elíptica, criando algumas armadilhas para o leitor. É fato ou ficção? Terá acontecido mesmo ou não? Mas isso, antes de ser um obstáculo, é mais um ingrediente sedutor na escrita de Leonardi, uma sedução quase borgiana, na qual realidade e mentira se misturam e se confundem, provando mais uma vez que os labirintos pelos quais as palavras podem nos levar são inúmeros e sempre inéditos (...). É esse jogo de palavras que torna o livro de Leonardi interessante e diferente, obrigando por vezes a uma reflexão para a qual não estávamos necessariamente preparados."

Hugo Almeida, da Agência Estado (do Jornal O Estado de S. Paulo) disse o seguinte a respeito de Quando o escriba do castelo era eu:

"Título instigante, capa bonita, um gênero meio indefinido e um autor de nome curioso que lembra algum clássico espanhol, francês ou italiano de século 18 ou 19. Que livro é esse? Ensaios, memórias, romance histórico, contos? O título, a bela embalagem, o gênero, tudo isso ainda é muito pouco diante do que há no livro, cinco textos inquietantes e ao mesmo tempo serenos, que vão surpreender e encantar o leitor mais exigente. Victor Leonardi é um escritor que sabe cativar com sua prosa fluente, bela, repleta de referências históricas, científicas, literárias - reais ou inventadas. Como os bons livros de contos, nenhuma das cinco narrativas tem o título do volume. Se alguém imaginar que o escriba está a serviço do rei, vai descobrir seu engano antes mesmo de chegar à última narrativa do volume, Biblioteca da Utopia, espécie de ensaio e novela de quase 40 páginas, talvez o melhor texto do livro. Outros textos ficam próximos de Biblioteca da Utopia, como Pintura do Invisível, um belo conto-ensaio com um quê de Júlio Cartazar. Talvez por sua formação científica e atividades diversificadas, sua índole nômade, como a de seus personagens-narradores, que às vezes parecem se confundir com o autor, Victor Leonardi ainda não pôde se concentrar na literatura para firmar seu nome entre os grandes prosadores brasileiros contemporâneos. Mas falta muito pouco."

A revista Bravo! publicou, em janeiro de 2003, um artigo de José Castello intitulado A novíssima literatura Brasileira. O autor refere-se à geração de escritores surgida a partir da segunda metade dos anos 1990 e diz o seguinte:

"Já não são mais os grupos do experimentalismo histórico, emparelhados em manifestos, repugnâncias comuns e princípios devastadores. Agora as posturas são isoladas e a tensão se produz, justamente, pela presença dessas individualidades que decidiram recusar lugares e configurações, preferindo a liberdade da solidão. Nessa geração oculta, que hoje toma a frente do cenário literário brasileiro, alguns nomes, já nem novos - mas novíssimos no que representam - começam a se impor". Entre os nomes citados, José Castello colocou o de Victor Leonardi e o livro Quando o escriba do castelo era eu. Segundo ele, os livros dos autores mencionados "delineiam um momento em que a literatura brasileira dá um grande salto, não só de qualidade mas, sobretudo, de atrevimento.(...) A literatura se converte, assim, em uma espécie de mundo alternativo, ou virtual, que vem preencher as lacunas do mundo real. Boas mentiras, que completam a insuficiência da verdade (...). Há, em todo caso, a redescoberta de uma utopia de fraternidade (...). Essa tensa relação com o mundo é um sinal, promissor, de que a realidade volta a interessar os escritores. Eles já não desejam, porém, a pose dos retratistas, ou a simplificação dos sentimentais. Em vez disso, buscam e fazem uma escrita que venha ferir o real, como alguém que, durante a noite, se pusesse a sacudir um sujeito que dorme. Esse sujeito é a literatura".