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Entre árvores e esquecimentos: história social nos sertões do Brasil

Editora Universidade de Brasília e Editora Paralelo 15 - Brasília DF, 1996 - 431 páginas
paralelo15@uol.com.br

Sinopse

A Modernidade e os povos indígenas, este é o tema central deste livro, no qual o autor analisa os principais conflitos interétnicos ocorridos ao longo da história da América Portuguesa (1532 - 1822), do Império Brasileiro (1822 - 1889) e do Brasil republicano. A produção de açúcar, no período colonial, foi feita em áreas até então habitadas por índios. A descoberta do ouro, no século XVIII, levou milhares de portugueses e luso-brasileiros para os sertões de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais, cujas terras eram habitadas há séculos por povos indígenas. O mesmo processo conflituoso ocorreu, em outras regiões, a partir da expansão da pecuária - no Nordeste, Centro-Oeste e Sul - e do extrativismo amazônico. Sempre que as frentes pioneiras avançavam, em busca de novas riquezas, os índios passavam a ser vistos como obstáculo a ser eliminado.
A violência esteve sempre associada, inclusive sob as formas extremas de etnocídio, ao colonialismo português em terras do Brasil. Quando esse país se separou de Portugal, em 1822, a violência não cessou, embora tenha assumido novas configurações, mais modernas, e isso foi assim ao longo de todo o século XX, na Amazônia principalmente. O crescimento econômico do Brasil sempre teve esse lado sombrio, tanatológico. A ideologia do progresso - fortemente enraizada no Brasil graças aos positivistas -, sempre relegou ao esquecimento essa presença de Tânatos em terras brasileiras, que este livro comprova com base em farta documentação histórica obtida em arquivos e bibliotecas do Brasil e de Portugal. A abordagem não é reducionista, pois além dos fatores econômicos, o autor mostra como a violência também foi provocada por fortes preconceitos em relação a índios e negros, desde o século XVI.
A complexidade do tema aumenta quando Leonardi passa a analisar, para além dos conflitos entre brancos e índios, as inúmeras guerras que os próprios povos indígenas fizeram entre si e as inúmeras alianças que portugueses fizeram com índios para combater outros índios. Essas contradições são estudadas mediante análises comparadas com outros contextos históricos nos quais conflitos interétnicos foram freqüentes, na África e na América do Norte. O resultado é uma ampla reflexão teórica sobre a acumulação prévia (Adam Smith) de capital, que o autor prefere chamar de acumulação pela força, e uma leitura crítica de alguns textos de Marx nos quais essas dimensões tanatológicas foram esquecidas. A expropriação de terras indígenas, pela força, para plantio de açúcar, fez parte desse longo processo de acumulação prévia de capital que gerou o mundo moderno. O Brasil foi o maior produtor mundial de açúcar, no século XVII, e esse fato não pode continuar sendo visto apenas pelo lado da história econômica. Quando a história social e a etnohistória são incorporadas aos estudos do período colonial no Nordeste, o açúcar é visto por múltiplos ângulos: produção, nos engenhos; refino, na Holanda; comercialização, em Lisboa, Antuérpia e Londres; e violência sem trégua contra os antigos ocupantes das terras do Recôncavo Baiano e da Zona da Mata, ou seja, contra índios de língua tupi ou jê.
O livro estuda a expropriação de terras indígenas nas cinco regiões brasileiras, com destaque para a situação das seguintes etnias: Yanomami, de Roraima; Nambikwara, de Mato Grasso; Waimiri-Atroari, do Amazonas; Guarani, do Rio Grande do Sul e Mato Grasso do Sul; Xokleng de Santa Catarina; Kaingang, do Oeste de São Paulo. Essas terras - por onde passaram os trilhos de algumas ferrovias e onde a pecuária e a agricultura se desenvolveram - não eram terras sem dono. Os povos sem escrita (sociedades ágrafas) não são povos sem história. Como a etnohistória quase nunca é incorporada às versões amenas da história do Brasil, fica então colocada a difícil questão teórica da memória e do esquecimento na produção historiográfica brasileira.
Apesar da violência histórica, o autor apresenta aspectos não-violentos na formação social brasileira ao descrever cenas de vida no sertão: compadrio, misticismo e formas de cooperação solidária entre alguns segmentos da população. A partir da situação brasileira, o livro oferece ao leitor uma nova visão da expansão mercantilista européia sobre os demais continentes e uma releitura do mundo moderno, por meio de diálogos com o pensamento de Kant, Hegel, Lafargue e outros pensadores.
O autor relê todas as atas de todos os congressos da 1ª Internacional - Associação Internacional de Trabalhadores (1864 - 1872) e da Internacional Socialista, no período 1889 - 1914, e percebe como o movimento operário internacional - que foi contemporâneo das violências contra índios do Brasil e da conquista truculenta do West, nos Estados Unidos - não se posicionou claramente sobre essas atrocidades impulsionadas pelo capitalismo. Os conceitos de civilização e barbárie, manejados de forma ideológica no século XIX, deformaram a idéia de progresso e dificultaram o advento da paz interétnica em terras do Brasil, país onde ainda são faladas 180 línguas indígenas, no início do século XXI, por cerca de 300.000 índios, e onde ainda vivem alguns povos indígenas isolados, na Amazônia, que até agora não tiveram contato algum com a sociedade brasileira envolvente.
Por último, o livro analisa a atuação da Igreja católica junto aos índios, tomando cuidado para não fazer generalizações: o trabalho dos missionários variou muito de um século para outro e, além disso, cada ordem religiosa - jesuítas, carmelitas, franciscanos etc - tinha um perfil próprio. Alguns padres estiveram a serviço do colonialismo e do escravismo, enquanto que outros foram extremamente generosos e solidários com os índios, como Antonio Vieira, no século XVII, e Gabriel Malagrida, no século XVIII.

Resenha

No dia 25 de fevereiro de 2002, a Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, publicou uma resenha escrita por Ivan Sérgio Freire de Sousa a respeito do livro Entre árvores e esquecimentos, de Victor Leonardi. Abaixo, os principais excertos:

"Eis uma forma original de se tratar a expansão brasileira para a vasta região dos sertões. É um trabalho cuja profundidade de abordagem e discussão mostra o desacerto de parte da bibliografia social que, direta ou indiretamente desqualifica a história e a cultura indígenas como algo digno de menção ou de atenção mais sistemática. O belíssimo título do livro, inspirado nos versos de Fernando Pessoa (E ir ser selvagem para a morte, entre árvores e esquecimentos), é inteiramente pertinente. A violência ocorrida em terras não vazias de pessoas e culturas chegou ao paroxismo de negar a existência de culturas outras. Quando a história dos sertões é vista unilateralmente, de muitas coisas importantes se está esquecendo, a começar pelo fato de que aqueles solos tinham (e muitos ainda continuam tendo) moradores milenares. É esta é a história que Victor Leonardi conta de forma clara, elegante, profunda. O forte do conteúdo discutido neste ensaio vem de uma formação madura de historiador que transita muito bem em outras áreas das ciências sociais. Leonardi é também sociólogo e advogado. Revela que não tem dificuldades com a leitura de filósofos e economistas (...). É um livro instigante, sério e humano. É um livro de paz, não de acusações. É uma obra que desperta a consciência crítica do cidadão brasileiro. Ao trazer, ao mesmo tempo, o que existe de melhor e de pior na história social dos sertões brasileiros, este é também um livro que colabora positivamente para a construção ou reconstrução da identidade do brasileiro. Mas não é só isso. Numa argumentação plena de sentido e lógica, Entre árvores e esquecimentos põe em xeque a unicidade daquilo que seria a questão nacional. (...) Algo também muito importante: o livro não é hermético. Destina-se a um largo público, sem deixar de ser essencial para os estudiosos do tema. Tenha certeza que o leitor concordará comigo que Entre árvores e esquecimentos é um livro que precisava ser escrito e publicado. Parabéns ao autor".


O fotógrafo Carles Solís Logan publicou um álbum fotográfico inspirado neste livro de Leonardi. Para vê-las acesse http://www.flickr.com/photos/carlessolis/sets/72157601981956627/

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