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Quando o escriba do castelo era eu

Nankin Editorial - São Paulo, 2000 - 111 páginas
ISBN 85-86372-27-7
http://www.nankin.com.br/
nankin@nankin.com.br

Sinopse

Este foi o primeiro livro de ficção publicado por Victor Leonardi. Contém cinco narrativas que podem ser lidas separadamente, embora os conteúdos tenham algo em comum. A primeira tem como tema central o livro (um livro que mata todo aquele que tenha levado vida medíocre); a segunda tem como tema o leitor (uma leitora ideal, que desaparece sem deixar vestígios depois de ter escrito cartas deliciosas para o narrador); a terceira aborda o tema das letras e contém um jogo de idéias - misterioso, enigmático - em busca da palavra exata, a mais adequada, a insubstituível na vida do jogador - narrador; a quarta tem como mote a própria literatura, que é apresentada por meio de uma comparação com a pintura de objetos invisíveis; a quinta e última narrativa trata do tema das bibliotecas e é a mais longa pois é em parte autobiográfica, revisitando o castelo francês de Sucy-en-Brie, onde Victor Leonardi viveu durante os anos de 1969, 1970 e 1971. Foi nesse Château de la Haute Maison que seu filho Rodrigo passou a primeira infância.
Essa quinta narrativa reúne em si todo o clima ficcional criado pelas anteriores: nunca se sabe o que é ficção e o que é realidade, embora as invenções do narrador sejam convincentes e mais verdadeiras do que os fatos vividos pelo autor na França, naquela fase de sua vida.
Nesse castelo da região parisiense, construído no século IX (a fachada é renascentista), viveram pessoas ilustres, nos séculos XIX e XX, entre elas Jacques Halévy, que foi músico e compositor, tendo estreado na Ópera Comique com Manon Lescaut. Era um homem brilhante, chegou a ter Gounod e Bizet como seus alunos. No mesmo château morou Leon Halévy, poeta e colaborador de Saint Simon. Em tempos mais recentes, André Gide passava férias nesse castelo. Também foi em Sucy-en-Brie que Diderot escreveu, no século XVIII, uma parte da Enclyclopédie.
Quando Leonardi foi morar em Sucy, o château já estava semi-arruinado há muito tempo. Sobraram grandes salões, escadarias monumentais, espelhos de grande porte e um túnel secreto que ligava Sucy ao castelo vizinho, de Boissy-St.Léger. Leonardi trabalhava como intérprete, pois o Château de la Haute Maison havia sido transformado em hospedaria de imigrantes. O cotidiano rústico desses operários imigrantes (argelinos e portugueses, mais de 200) contrastava vivamente com o passado refinado e erudito dos antigos proprietários do castelo, e isso serve de recurso literário para que o narrador crie um ambiente charmoso e surreal, com leituras e vivências se entrecruzando.
Durante os três anos em que morou em Sucy, Leonardi escrevia cartas, regularmente (duas ou três por dia), para trabalhadores portugueses que não sabiam escrever. Eram cartas de cunho pessoal, que os operários ditavam e o escritor redigia e mandava para Portugal. Foi um contato extraordinário com temas portugueses da região de Leiria e Vila Nova de Ourém: recados para filhos lavradores; notícias para mulheres saudosas; reclamações sobre o preço das coisas na França; propostas de casamento; pedidos de ajuda; lamentações sobre o falecimento de velhos amigos. Sobre tudo isso Leonardi escrevia. E, algumas semanas mais tarde, lia as respostas para os operários. Ou seja, Leonardi foi um verdadeiro escriba, na França, e sua narrativa recria literariamente o ambiente paradoxal daqueles tempos posteriores ao maio de 1968. Victor Leonardi chegou à França no dia 13 de maio de 1968 e aí passou seis anos. Trabalhava nesse castelo e estudava na Universidade de Paris. "Biblioteca da utopia" é o título desta quinta narrativa.
Este livro, muito bem recebido pela crítica, foi comentado com destaque em São Paulo e no Rio de Janeiro nas páginas de O Estado de S. Paulo e O Globo. Também foi mencionado em artigo da revista Bravo! a respeito da novíssima literatura brasileira.

Resenhas

Francisco Costa
, do Jornal O Estado de S. Paulo, escreveu o seguinte, no Caderno 2, em matéria intitulada "Leonardi pratica o fascinante jogo da inovação", publicada no dia 18 de maio de 2002:

"A maior dificuldade a respeito de Quando o escriba do castelo era eu, de Victor Leonardi, é fechar o livro. Por uma razão muito simples: a leitura é tão agradável, tão envolvente, que a custo se larga o volume. A perspectiva de linguagem é tão nova, o foco de atenção tão interessante, que a única palavra que me ocorre para explicar a prosa de Victor Leonardi é: lavor. Sim, é de um fino lavor esse texto ficcional que corre diante dos olhos (...). A exemplo de outros escritores de raro porte, a grande força do texto de Victor Leonardi não se encontra no que é contado, mas sim no como isso se realiza".

Marcelo Rollemberg, por sua vez, escreveu o seguinte no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, no caderno Prosa & Verso do dia 2 de março de 2002:

"As palavras têm uma força que transcende à sua própria expressividade, ganham corpo, forma e vida independentes, criando mundos além de seus significados estritos. Os cabalistas e místicos sempre souberam do poder que as palavras possuem e do cuidado que devemos ter ao pronunciá-las ou escrevê-las. É isso que as torna tão tentadoras, tão sérias - e tão perigosas. Em Quando o escriba do castelo era eu, recentemente publicado pela Nankin Editorial, o paulista Victor Leonardi trata exatamente desse misto de tentação e assombro que as palavras são capazes de inspirar, criando cinco narrativas nas quais os personagens principais, de fato, não são de carne e osso, e sim vocábulos. Explica-se: nas histórias de seu livro, Leonardi cria situações nas quais seus personagens humanos vivem enredados por uma trama muito maior do que eles. A trama das palavras. As digressões que Victor Leonardi faz em seu livro, podem, por vezes, tornar a leitura por demais elíptica, criando algumas armadilhas para o leitor. É fato ou ficção? Terá acontecido mesmo ou não? Mas isso, antes de ser um obstáculo, é mais um ingrediente sedutor na escrita de Leonardi, uma sedução quase borgiana, na qual realidade e mentira se misturam e se confundem, provando mais uma vez que os labirintos pelos quais as palavras podem nos levar são inúmeros e sempre inéditos (...). É esse jogo de palavras que torna o livro de Leonardi interessante e diferente, obrigando por vezes a uma reflexão para a qual não estávamos necessariamente preparados."

Hugo Almeida, da Agência Estado (do Jornal O Estado de S. Paulo) disse o seguinte a respeito de Quando o escriba do castelo era eu:

"Título instigante, capa bonita, um gênero meio indefinido e um autor de nome curioso que lembra algum clássico espanhol, francês ou italiano de século 18 ou 19. Que livro é esse? Ensaios, memórias, romance histórico, contos? O título, a bela embalagem, o gênero, tudo isso ainda é muito pouco diante do que há no livro, cinco textos inquietantes e ao mesmo tempo serenos, que vão surpreender e encantar o leitor mais exigente. Victor Leonardi é um escritor que sabe cativar com sua prosa fluente, bela, repleta de referências históricas, científicas, literárias - reais ou inventadas. Como os bons livros de contos, nenhuma das cinco narrativas tem o título do volume. Se alguém imaginar que o escriba está a serviço do rei, vai descobrir seu engano antes mesmo de chegar à última narrativa do volume, Biblioteca da Utopia, espécie de ensaio e novela de quase 40 páginas, talvez o melhor texto do livro. Outros textos ficam próximos de Biblioteca da Utopia, como Pintura do Invisível, um belo conto-ensaio com um quê de Júlio Cartazar. Talvez por sua formação científica e atividades diversificadas, sua índole nômade, como a de seus personagens-narradores, que às vezes parecem se confundir com o autor, Victor Leonardi ainda não pôde se concentrar na literatura para firmar seu nome entre os grandes prosadores brasileiros contemporâneos. Mas falta muito pouco."

A revista Bravo! publicou, em janeiro de 2003, um artigo de José Castello intitulado A novíssima literatura Brasileira. O autor refere-se à geração de escritores surgida a partir da segunda metade dos anos 1990 e diz o seguinte:

"Já não são mais os grupos do experimentalismo histórico, emparelhados em manifestos, repugnâncias comuns e princípios devastadores. Agora as posturas são isoladas e a tensão se produz, justamente, pela presença dessas individualidades que decidiram recusar lugares e configurações, preferindo a liberdade da solidão. Nessa geração oculta, que hoje toma a frente do cenário literário brasileiro, alguns nomes, já nem novos - mas novíssimos no que representam - começam a se impor". Entre os nomes citados, José Castello colocou o de Victor Leonardi e o livro Quando o escriba do castelo era eu. Segundo ele, os livros dos autores mencionados "delineiam um momento em que a literatura brasileira dá um grande salto, não só de qualidade mas, sobretudo, de atrevimento.(...) A literatura se converte, assim, em uma espécie de mundo alternativo, ou virtual, que vem preencher as lacunas do mundo real. Boas mentiras, que completam a insuficiência da verdade (...). Há, em todo caso, a redescoberta de uma utopia de fraternidade (...). Essa tensa relação com o mundo é um sinal, promissor, de que a realidade volta a interessar os escritores. Eles já não desejam, porém, a pose dos retratistas, ou a simplificação dos sentimentais. Em vez disso, buscam e fazem uma escrita que venha ferir o real, como alguém que, durante a noite, se pusesse a sacudir um sujeito que dorme. Esse sujeito é a literatura".

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